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gallo pinto desajuno costa rica

Costa Rica revela sua diversidade também à mesa

Caroline Tonaco por Caroline Tonaco
14 de setembro de 2026
in América Central e Caribe, Destaque, Destinos, Gastronomia, Home
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Sabores, tradições e ingredientes locais compõem um retrato gastronômico do país

Na primeira reportagem desta viagem, a Costa Rica apareceu pelas paisagens, pela fauna e pelas mudanças de clima entre o Pacífico e as terras altas. Desta vez, o caminho é outro: descobrir a Costa Rica pelo que chega à mesa.

Ao longo da viagem, encontrei uma Costa Rica que também se revela pelos sabores. Pratos do dia a dia, receitas de família, frutos do mar, cervejas artesanais, queijos produzidos nas montanhas, cafés de altitude e até vinhos cultivados em território tropical compõem um retrato gastronômico tão diverso quanto o próprio país.

O que provei, claro, não resume toda a gastronomia costa-riquenha. Mas ajuda a mostrar como os sabores acompanham as mudanças de clima, paisagem e região.

Casado - Costa Rica
Casado, um dos pratos mais presentes no almoço costa-riquenho, reúne arroz, feijão, salada, picadillo de legumes e uma proteína (Foto: Caroline Tonaco)

Do casado e do gallo pinto à cozinha contemporânea

É difícil passar pela Costa Rica sem encontrar o casado, muito comum no almoço. Apesar do nome curioso, não se trata de uma receita única. Normalmente reúne arroz, feijão, salada e uma proteína, que pode ser peixe, frango ou carne. Banana-da-terra, tortillas, picadillo de legumes e outros acompanhamentos também podem completar o prato.

Outro clássico é o gallo pinto. Um dos pratos mais presentes na mesa do país, especialmente no café da manhã, ele combina arroz e feijão e costuma vir acompanhado de ovos, queijo, tortillas, frutas e outras variações.

café da manhã- gallo pinto
Na Costa Rica, fiz como os costarriquenhos e degustei gallo pinto em todos os meus cafés da manhã (Foto: Caroline Tonaco)

São receitas simples, fartas e cotidianas. E talvez esteja justamente aí parte de seu encanto: conhecer a gastronomia de um país também significa provar aquilo que seus moradores comem no dia a dia.

Restaurante Silvestre - San José - Costa Rica
Um dos oito pratos do menu degustação do Restaurante Silvestre, em San José, que revisita ingredientes e memórias da cozinha costa-riquenha (Foto: Caroline Tonaco)

Mas a cozinha costa-riquenha vai muito além deles. Em San José, o Restaurante Silvestre mostra como ingredientes, técnicas e memórias locais também podem ganhar uma leitura contemporânea.

Comandado pelo chef Santiago Fernández, o restaurante ocupa uma casa no centro histórico e propõe uma experiência que vai além da escolha de pratos no cardápio. No menu Óptica, a inspiração parte de antigos negativos fotográficos ligados à história familiar do chef para construir uma narrativa em torno dos quatro elementos — água, fogo, ar e terra.

Vinho artesanal restaurante silvestre
Vinho de manga e maracujá. produzido no próprio restaurante Silvestre (Foto: Caroline Tonaco)

São oito etapas apresentadas uma a uma, com a história por trás de cada prato. Tacos, carnes, pescados, frutos do mar, tortilhas de milho preto, palmito fresco e outros ingredientes aparecem em preparações nas quais o cuidado se estende às louças, aos materiais e à própria maneira de servir.

O menu também é harmonizado com bebidas que fogem do convencional, entre elas o vinho de framboesa e o de manga e maracujá, produzidos no próprio restaurante.

Ao final, os aplausos espontâneos dos presentes dizem muito sobre a experiência.

Rancho Cielo Alto
Rancho Cielo Alto, onde a experiência gastronômica começa entre plantas e ervas cultivadas na propriedade com vista para o mar (Foto: Caroline Tonaco)

Da horta para a mesa

Ao deixar San José e seguir em direção ao Pacífico, outra face da gastronomia começa a aparecer. Em Playa Hermosa, na região de Uvita, a relação entre cozinha e origem dos ingredientes ganha forma no Rancho Cielo Alto. Alí, a chef Jazmín Godínez começa a visita não diante do fogão, mas entre plantas e ervas cultivadas na propriedade.

Chef Jazmín Godínez e Caroline Tonaco
Com a chef Jazmín Godínez, no Rancho Cielo Alto, durante a experiência que aproxima a horta da cozinha (Foto: Caroline Tonaco/Arquivo pessoal)

Ela apresenta espécies utilizadas na cozinha, explica seus usos, inclusive medicinais, e, depois, convida os visitantes a participar. É hora de colocar a mão na massa. Ervas são picadas, pimentões recheados e os ingredientes seguem para preparações feitas no fogão a lenha.

Grande parte do que chega à mesa vem da própria propriedade familiar. Ali, o conceito de farm to table, tão repetido hoje pela gastronomia mundo afora, ganha uma tradução quase literal. A horta está a poucos passos da mesa.

gastrononomia do pacífico costa-riquenho
Prato do restaurante La Parcela: mariscos, peixes e frutos do mar frescos fazem parte da gastronomia do Pacífico costa-riquenho (Foto: Caroline Tonaco)

O Pacífico também chega ao prato

No litoral, o cardápio muda. Depois do passeio pelo Parque Nacional Marino Ballena, em Uvita, uma parada no Que Tuanis Café trouxe à mesa um arroz de camarão acompanhado de uma Imperial, uma das cervejas mais conhecidas da Costa Rica.

arroz de camarones
Arroz de camarão do restaurante Que Tuanis Café (Foto: Caroline Tonaco)

Em Dominical, a experiência foi outra. Na Fuego Brew Co, o gerente Mariano Calvo apresentou parte do processo de produção das cervejas artesanais da casa e explicou as diferenças entre os estilos oferecidos. As cervejas chegaram à mesa acompanhadas por pizzas de massa de longa fermentação, em um ambiente construído com muita madeira e integrado à vegetação.

Fuego Brew Co
Pizzas e cervejas artesanais são a especialidade da Fuego Brew Co (Foto: Caroline Tonaco)

Ainda na região de Dominical, o jantar no La Parcela teve outro protagonista além da comida: o pôr do sol sobre o Pacífico. Peixes, ceviches, mariscos e outros frutos do mar dominam boa parte das escolhas, enquanto a música ao vivo acompanha a noite.

banana flambada - La Parcela
Preparo da banana flambada do restaurante La Parcela (Foto: Caroline Tonaco)

Na sobremesa, uma banana flambada preparada diante dos visitantes fecha o jantar com fogo e algum espetáculo.

No litoral, a gastronomia acompanha o cenário. Mas, quando a estrada começa a subir, os sabores também mudam.

degustação queijos canaa
Degustação de queijos na Quesos Canaán, em Canaán de Rivas, no Vale do Chirripó (Foto: Caroline Tonaco)

Queijo também é assunto sério por aqui

Em Canaán de Rivas, no Vale do Chirripó, a Quesos Canaán transforma a produção de queijos em uma experiência que começa muito antes da degustação.

A propriedade familiar permite acompanhar diferentes etapas da produção, desde a criação dos animais e a obtenção do leite até a fabricação e a maturação dos queijos. Também adota práticas de aproveitamento de resíduos e geração de energia, o que aproxima produção artesanal e sustentabilidade.

Mas, na hora da degustação, fica difícil não se envolver. Para uma mineira acostumada a viver em uma terra onde queijo é assunto sério, a comparação era inevitável. E a conclusão também: meu único arrependimento foi não ter comprado mais.

queijos Canaa
Queijos maturdos artesanalmente pela Quesos Canaán, em Canaán de Rivas (Foto: Caroline Tonaco)

Entre receitas de inspiração suíça e versões que incorporam ervas e outros temperos, os queijos mostram como técnicas trazidas de fora ganharam expressão própria nas montanhas costa-riquenhas.

Minha dica, portanto, é pouco imparcial: se passar por lá, compre.

Jardines Secretos Restaurante - Gastronomia Costa Rica
Jardines Secretos combina cozinha local com um cenário cercado por jardins (Foto: Caroline Tonaco)

Um casado entre jardins

Ainda no Vale do Chirripó, o Café e Restaurante Jardines Secretos mostrou outra face da cozinha local. Ali, o almoço foi um casado cercado por jardins, lagos, flores e bananeiras.

casado do jardines secretos
Casado servido no Café e Restaurante Jardines Secretos (Foto: Caroline Tonaco)

Durante a refeição, uma chuva fina começou a cair. O cheiro de terra molhada tomou conta do jardim, enquanto a paisagem mudava diante da mesa. Era mais um daqueles momentos em que gastronomia e natureza pareciam difíceis de separar.

tamales gastronomia costa rica
Os tamales costa-riquenhos, preparados com farinha de milho, carne, arroz e legumes são uma tradição nas festividades natalinas (Foto: Caroline Tonaco)

Tamales: tradição de Natal na Costa Rica

Os tamales ocupam um lugar especial nas tradições familiares costa-riquenhas, principalmente no período do Natal. Em dezembro, é comum que famílias se reúnam para preparar grandes quantidades do prato em um ritual conhecido como tamaleada, que reúne diferentes gerações em torno da cozinha.

A massa de milho é preparada, os recheios, normalmente carne, arroz e legumes, são distribuídos e as porções são envolvidas em folhas de bananeira antes do cozimento. Foi justamente essa tradição que conheci mais de perto na casa de Doña Leila.

casa doña leila - gastronomia costa rica
A Casa de Doña Leila parece ter saído de um conto de fadas, cercada pela natureza das montanhas (Foto: Caroline Tonaco)

Ali, a experiência não consiste apenas em provar o prato. É possível acompanhar e participar do preparo, aprendendo diretamente com quem mantém uma receita profundamente ligada à memória familiar.

Mais do que uma aula de culinária, é uma aproximação com uma tradição que continua viva dentro das casas costa-riquenhas.

doña leila
Com Doña Leila, depois de aprender um pouco sobre o preparo dos tradicionais tamales (Foto: Travel3)

Do lado de fora, a chuva fina caía sobre as montanhas, e o cenário não poderia ser mais diferente daquele encontrado poucos dias antes no Pacífico.

Ao final, os tamales foram servidos quentes, acompanhados de um café coado na hora por Doña Leila.

Copey Estate Winery
Copey Estate Winery, em Copey de Dota, produz vinhos nas terras altas da Costa Rica (Foto: Caroline Tonaco)

Vinho na Costa Rica? Sim

Nas terras altas de Dota, outra surpresa. Em Copey de Dota, a Copey Estate Winery cultiva uvas em altitude e desafia a associação quase automática entre clima tropical e impossibilidade de produção vinícola.

A visita apresenta as particularidades, como a dupla poda, para produzir vinho em uma região tropical de montanha e termina, naturalmente, em degustação.

Copey Estate Winery Degustação
Degustação na Copey Estate Winery (Foto: Caroline Tonaco)

Os vinhos dividem a atenção com outro produto curioso da propriedade: o Golden Rush, licor elaborado com physalis, ou uchuva, como a fruta também é conhecida na região.

Vinícola Copey - Costa Rica
Decoração bem-humorada nas instalações da vinícola (Foto: Caroline Tonaco)

É uma daquelas descobertas que dificilmente entram na imagem mais difundida da gastronomia costa-riquenha. E justamente por isso ficam na memória.

café - costa rica
Café Don Cayito, produzido pela família Calderón Castillo em Santa María de Dota, acumula reconhecimentos na Taza de la Excelecia da Costa Rica (Foto: Caroline Tonaco)

O café esperado — e ainda assim surpreendente

Se encontrar uma vinícola causa surpresa, o café faz o movimento oposto. Todo mundo espera encontrá-lo na Costa Rica. O que surpreende é perceber quanto existe por trás de uma xícara.

Em Santa María de Dota, a experiência no Café Don Cayito acompanha o caminho que transforma o fruto cultivado nas montanhas em uma das bebidas mais associadas ao país.

café - gastronomia costa rica
Degustação dos cafés Don Cayito, em Santa María de Dota (Foto: Caroline Tonaco)

A produção familiar, as variedades cultivadas, os diferentes processos e as características dos grãos ajudam a mostrar que falar simplesmente em “café costa-riquenho” esconde um universo muito mais complexo.

Cafeteria Don Cayito
Espaço da Cafeteria da Don Cayito (Foto: Caroline Tonaco)

Altitude, clima, solo, variedade e processamento interferem diretamente no resultado final. Depois de dias bebendo café pelo país, conhecer sua origem muda também a maneira de prová-lo. Após o tour e a degustação, uma parada na cafeteria do local é uma boa pedida para comprar cafés, utensílios, geleias, temperos e fazer um lanche com produtos preparados por lá.

truta salmon - gastronomia costa rica
Truta servida no Al Mercat Dota, com molho de curry de coco e gengibre (Foto: Caroline Tonaco)

Sabores das terras altas

Já no Al Mercat Dota, instalado no Cedrela Eco Lodge, os ingredientes locais e sazonais voltam a mostrar como a cozinha acompanha o território.

Naquela noite fria nas montanhas, minha escolha foi uma truta produzida em Dota. Depois de tantos dias de calor no Pacífico, aquela refeição quente, cercada pelo aconchego da madeira e pelo clima frio das terras altas, resumia perfeitamente a mudança de paisagem — e de sabores.

Ao longo da viagem, a gastronomia acompanhou cada transformação do país. No litoral, vieram pescados, frutos do mar, cerveja artesanal e frutas tropicais. Nas regiões rurais, horta, fogão a lenha, receitas de família e pequenos produtores. Nas montanhas, queijos, café, truta e vinho.

Vista do Restaurante La Parcela
Vista do Restaurante La Parcela (Foto: Caroline Tonaco)

A Costa Rica também se conhece pelo sabor

Gallo pinto e casado continuam sendo referências fundamentais da cozinha costa-riquenha. Mas reduzir a gastronomia do país a esses dois pratos seria deixar de lado boa parte dessa história.

Há chefs que reinterpretam tradições, famílias que preservam receitas e pequenos produtores que valorizam ingredientes locais. Mas há também algo menos mensurável: a proximidade entre quem produz e quem serve — e a sensação de que, muitas vezes, a comida chega à mesa acompanhada de uma história.

Foi isso que encontrei à mesa durante esta viagem: a Costa Rica não muda apenas de paisagem. Muda também de sabor.

E talvez exista uma maneira especialmente gostosa de entender a tão falada Pura Vida. É preciso prová-la.

+ Costa Rica: do Pacífico às terras altas de Dota

Tags: Costa Ricagastronomiagastronomia costa ricaICTturismo costa ricavisite costa rica
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