Embarco, encontro minha poltrona, durmo ouvindo queixas ditas sob as máscaras e acordo no céu
Mesmo com o cérebro ainda adormecido, começam a entrar os primeiros registros do dia que chega junto com o aeroporto, a sala de embarque e o sol que acabou de decolar. Na primeira página dos jornais, notícias sobre a pandemia contagiam as da economia. O dólar sobe, a bolsa desce, a dúvida diante do futuro de novo se estabelece. Vinte e quatro horas a mais ou a menos e as manchetes poderiam estar anunciando justamente o contrário, como por exemplo, a descoberta de uma nova vacina. Tanta oscilação afeta o humor dos poucos leitores-viajantes que aguardam na sala de embarque.
O aeroporto amanheceu frio e deserto. Ainda não é a hora dos viajantes chegarem, respondeu, indiferente, o homem da companhia aérea. Aceito a explicação. Nos portões 31, 32, 33 e 34, parece que vai demorar até os passageiros se darem conta de que uma viagem os espera. O gate 32, que promete levar turistas para Buenos Aires, ainda está vazio. Quem vai para Madri começa a conferir horários no portão 31. O 33, de onde sairá um voo para Recife, é o mais procurado e este aqui, o de número 34, timidamente se movimenta ao sinal da última chamada para minha próxima viagem.
O dólar sobe, a bolsa desce e as leis de mercado se esquecem de que somos gente de verdade, loucos de vontade de trabalhar, produzir e crescer. Embarco, encontro minha poltrona e durmo ouvindo queixas abafadas, ditas sob as máscaras de proteção facial e, de repente, acordo nas nuvens.
Com o pensamento acima das nuvens
Do lado de fora, toneladas de vapor se acumulam, concentram-se, espremem-se e explodem desordenadamente ocupando cada trecho da atmosfera. Encrespadas, se embolam de maneira descomunal, subindo umas sobre as outras, num movimento caótico e arredondado. Compactas, parecem um mingau celestial que engrossou demais.
Olho para o planeta lá embaixo. Abaixo das nuvens, a simétrica geometria dos campos agrícolas é quebrada pelo livre arbítrio do rio volumoso que corre abrindo caminho pela paisagem. Encaro de novo o céu. Num nervosismo revolto, novas nuvens mastodônticas congestionam a rota aérea. Quando a asa do avião roça uma delas, todos sentimos um leve tremor a bordo, num princípio de turbulência. Ninguém se preocupa; é apenas vapor.
O avião faz uma manobra e num instante todas as nuvens somem do meu campo de visão. O comandante encontrou um caminho para o avião passar e agora são as nuvens que me observam silenciosas, a uma distância razoável para – surpresa! – retornarem. Meu pensamento acima das nuvens identifica-as como um rebanho de carneirinhos. Pequeninas, elas flutuam sobre um conjunto de rios que serpenteiam o cenário lá embaixo. Aos poucos os vestígios humanos vão desaparecendo e o selvagem vai ganhando espaço. Neste momento do voo, a natureza está em alta.
O avião começa a perder altitude e ouço a comissária avisar que os procedimentos de aterrissagem já se iniciaram. Rapidamente atingimos o nível das nuvens que agora espocam como flashs em frente às nossas janelas. Vamos pousar.
Continuo com o pensamento acima das nuvens que agora, vistas de baixo, transformaram o dia que estava radiante, em nublado. Aproximamo-nos mais da terra. Verdes de todos os tons enchem de cores os campos produtivos. Ondas de plantações irrigadas tecem ensaios artísticos no solo. Ao lado, lagos estáticos brilham adormecidos de tanto calor. Surgem as primeiras construções. A cidade se aproxima. Vista do alto, parece uma brincadeirinha urbana. Antes de tocar o solo, entendi como é bom deixar o pensamento viajar acima das nuvens.






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