Baleias-jubarte, crocodilos, praias, cachoeiras e florestas compõem um roteiro que revela diferentes versões do país e ajuda a entender o verdadeiro sentido da Pura Vida
O barco se afasta da costa e, aos poucos, a paisagem ganha uma dimensão que a gente não consegue perceber quando está em terra firme. De um lado, está o Pacífico. Do outro, uma faixa de floresta se estende em diferentes tons de verde. De repente, o piloto desliga o motor e o som das águas cobre o silêncio que toma conta do barco, enquanto todos os olhares se voltam para o mar.
É quando um movimento diferente rompe a linha da água. E ela aparece.

A tão esperada baleia-jubarte rompe a superfície diante do barco. Ela está acompanhada pelo filhote, mais discreto e difícil de registrar. O tempo em que estivemos no barco foi suficiente para se tornar um dos momentos mais marcantes da viagem. Afinal, estamos na Costa Rica.
A Costa Rica, país que transformou a expressão Pura Vida em símbolo de sua identidade, se revela ao longo da viagem pela fauna, pela flora e por paisagens que mudam completamente de uma região para outra.
Aqui a natureza deixa de ser mero pano de fundo e se torna a condutora da nossa experiência pelo país.

San José é o ponto de partida
Minha viagem começou em San José. Para muitos viajantes, a capital e seus arredores funcionam como ponto de partida para explorar o país. Você pode ficar um, dois ou três dias, ou apenas uma noite na cidade, se estiver ansioso para mergulhar na aventura.
Minha primeira noite no país foi no Studio Hotel, em Santa Ana, nos arredores de San José. O hotel boutique chama a atenção pela coleção de obras de arte espalhadas pelos espaços comuns, entre esculturas, gravuras e pinturas. Os quartos amplos, com estação de trabalho e sala de estar, oferecem uma boa pausa antes de seguir viagem.

Vale entender, antes de pegar a estrada, parte da história que ajuda a explicar a paisagem que veremos dali em diante. Em 1948, depois de uma guerra civil curta e violenta, a Costa Rica aboliu o Exército. A decisão se tornaria um dos marcos da história do país, que nas décadas seguintes ampliaria investimentos sociais e construiria também uma política de conservação ambiental reconhecida internacionalmente.
Quartéis ganharam novos usos. O Museu Nacional da Costa Rica, em San José, ocupa o antigo Cuartel Bellavista, que ainda preserva marcas de tiros na fachada. Décadas mais tarde, a criação de parques nacionais e áreas protegidas ajudaria a consolidar um modelo no qual a conservação da natureza se tornou parte importante da identidade e do turismo do país.
É essa combinação entre riqueza natural e políticas de conservação que ajuda a diferenciar a Costa Rica de um país simplesmente bonito por natureza.

Rumo ao Pacífico da Costa Rica
Na manhã seguinte, sigo rumo ao Sul do país. A rota desce do planalto até o litoral e segue pela Costanera Sur, rodovia que corre pela costa do Pacífico. A primeira parada acontece antes de chegarmos ao oceano. Atravessamos a ponte sobre o Rio Tárcoles para chegar a uma passarela suspensa. É o The Croc Skywalk, de onde observo os gigantescos crocodilos-americanos tomando sol às margens do rio ou permanecendo parcialmente submersos, quase imóveis na água.

Os maiores crocodilos são as estrelas do rio e por isso, segundo os guias locais, ganharam apelidos como Mike Tyson, Osama Bin Laden, Angelina Jolie e Lady Gaga. Foi meu primeiro contato com a vida selvagem costa-riquenha e com uma surpresa recorrente que me acompanhou durante toda a viagem. Na Costa Rica, os animais aparecem quando menos se espera — e quase nunca no horário que a gente escolheu.

De volta à estrada, seguimos rumo ao Pacífico. A paisagem começa a mudar até a chegada a Jacó, cidade costeira da província de Puntarenas, onde o surfe, as praias e o movimento turístico marcam o ritmo local. É também um dos últimos pontos desse trecho do percurso com grande estrutura turística antes de a ocupação urbana diminuir e a vegetação ganhar cada vez mais espaço.

Nas montanhas de Hatillo de Quepos, o Lapazul Retreat Center marca a primeira grande mudança de cenário da viagem. Cercado pela mata e instalado em uma área elevada, o pequeno hotel boutique tem apenas nove acomodações e permite avistar, lá embaixo, o Pacífico.
A vista ajuda a entender a geografia dessa região da Costa Rica, onde floresta, montanha e mar aparecem quase sem transição. O hotel também mantém uma relação próxima com produtores locais, valorizando ingredientes da região em seu restaurante.
A viagem continua pela costa em direção ao sul, onde o Pacífico ganha novos cenários e a vida marinha passa a comandar a experiência.

Costa Rica recebe baleias dos dois hemisférios
Mais ao sul está Uvita, uma das entradas para o Parque Nacional Marino Ballena. Criado em 1989, é uma das principais áreas de proteção marinha do país. E o nome do parque não é apenas um enfeite: a região é um dos principais destinos da Costa Rica para a observação de baleias-jubarte, por um motivo raro.
Entre julho e outubro chegam as jubartes vindas do Hemisfério Sul, para acasalar, dar à luz e permanecer com os filhotes durante os primeiros meses de vida. E aproximadamente entre dezembro e abril chegam as que migram do Pacífico Norte, com o mesmo objetivo. Assim, a Costa Rica recebe as baleias vindas dos dois hemisférios em épocas diferentes, o que amplia consideravelmente as oportunidades de avistamento.
A experiência começa ainda em terra. Na entrada do parque, uma estrutura com bilheteria e café recebe os visitantes, que passam por orientações de segurança e conhecem um pouco da vida marinha da região antes de seguir para a praia. Pelo caminho, o guia compartilha detalhes sobre o comportamento das baleias e as migrações que as trazem até o litoral da Costa Rica.

Em Punta Uvita, a geografia entra na brincadeira. Na maré baixa, um banco de areia se estende mar adentro e desenha uma cauda de baleia — a Cola de Ballena, que pode ser percorrida a pé e dá ao parque seu ângulo mais reconhecível.
O barco vai deixando a praia e, quanto mais nos afastamos, mais impressionante fica a faixa de floresta que acompanha o litoral. O verde intenso da vegetação encontra o azul do Pacífico, e a navegação revela recantos selvagens, formações rochosas e cavernas moldadas pela ação do mar.

Avistar as baleias, porém, depende apenas delas. Não há garantia de quando ou onde surgirão, quanto tempo permanecerão na superfície ou se voltarão a aparecer. Talvez esteja aí parte do fascínio: na observação da vida selvagem, quem está no comando é a natureza. Naquela manhã, tivemos a sorte de encontrar uma delas acompanhada pelo filhote. Depois do encontro, o barco ainda seguiu pela costa, permitindo ver com calma esse trecho preservado do Pacífico Sul a partir do mar.
O encontro com as baleias era, sem dúvida, o momento mais aguardado, mas o Parque Nacional Marino Ballena mostra que a experiência vai muito além do avistamento.

Praias e diferentes ritmos no Pacífico
Esse trecho do litoral mostra como pequenas distâncias podem revelar praias e experiências bastante diferentes no Pacífico costa-riquenho.
Dominical tem no surfe uma das marcas de sua identidade, com bares, restaurantes, pequenos hotéis e escolas de surfe que acompanham o ritmo da praia. A poucos minutos dali, Dominicalito troca o movimento por uma atmosfera mais tranquila. Já Jacó, conhecida no início da viagem, mostra outra face desse mesmo litoral, com maior estrutura turística e bastante movimento à beira-mar.

E entre uma praia e outra, a gastronomia também ganha espaço. Os restaurantes do litoral aproveitam a proximidade com o mar para servir peixes e frutos do mar frescos, mas também há espaço para ingredientes tropicais, pratos à base de arroz, feijão e banana-da-terra e sabores que refletem a diversidade da cozinha costa-riquenha. Um assunto que, aliás, merece uma próxima parada — e terá uma matéria só para ela, que vem por aí

A floresta leva até Nauyaca
Ainda estou na região do Pacífico Sul, mas é hora de trocar o mar pela floresta. Sigo para conhecer o Nauyaca Waterfall Nature Park, nas proximidades de Dominical. Logo na chegada, já em meio à mata, a recepção do parque reúne espaços para descanso e informações sobre a fauna e a flora da região. E o primeiro morador da floresta não demora a aparecer: no alto de uma árvore, uma preguiça observa discretamente meus primeiros passos.
Quase imóvel e indiferente aos visitantes que apontam celulares e câmeras em sua direção, ela tem sua maneira bem particular de medir o tempo e a vida. Confesso que fiquei com inveja.

Para conhecer a magnífica Cachoeira de Nauyaca, começo o percurso num 4×4, mas depois a descida é a pé. O caminho é bem-sinalizado e placas identificam as espécies de árvores e plantas que vão surgindo. Pontos estratégicos de água permitem lavar o rosto, beber e reabastecer as garrafas — um detalhe simples, mas particularmente bem-vindo no calor úmido da floresta.
No fim do caminho, a floresta se abre para revelar Nauyaca. A grande queda d’água forma piscinas naturais de águas cristalinas cercadas pela vegetação, onde é possível mergulhar e se refrescar.
A volta exige mais disposição. A subida é longa e faz os pontos de água espalhados pela trilha parecerem ainda mais convidativos. Quando finalmente chegamos de volta à recepção do parque, poucas coisas combinavam tanto com o fim do percurso quanto um suco de maracujá natural, doce e bem gelado que foi servido.

A chuva não interrompe a Costa Rica
Meu roteiro agora vai ganhar altitude. Sigo em direção ao Vale do Chirripó e Canaán, e uma parada em uma pequena queijaria familiar já revela um cenário bastante diferente daquele encontrado no litoral. A experiência gastronômica fica para a próxima matéria, mas a mudança ao redor é evidente.
Almoçava no Café e Restaurante Jardines Secretos, cercado por jardins, flores, bananeiras e lagos, quando a chuva chegou de mansinho. O cheiro de terra molhada, a mudança da luz e o verde ainda mais intenso deram outra atmosfera à paisagem. Em vez de atrapalhar, a chuva deixou o cenário mais bonito.
Viajar pelo país durante a estação verde significa entender que nem sempre é preciso esperar o céu abrir para continuar o passeio. Capa de chuva e roupas adequadas para atividades ao ar livre tornam-se companheiras frequentes, e a chuva não impede que a viagem continue.
Na Costa Rica, a chuva também faz parte da paisagem.

Os 10°C de Dota e a sensação de ter trocado de país
Estou indo para Dota e, de novo, o caminho me surpreende. O calor úmido da região do Pacífico ficou para trás e, conforme ganhamos altitude, a temperatura vai caindo. Neste momento, ela se aproxima dos 10°C, e a paisagem costeira dá lugar às montanhas e às florestas nubladas das terras altas. Confirmo com o guia: estamos a aproximadamente 2.000 metros de altitude.
Copey de Dota marca essa nova etapa da viagem. Estou hospedada no Gemas del Bosque Lodge, cercado por floresta e com vista para o vale. Nos quartos, ou melhor, nas cabanas privativas, grandes janelas e as varandas voltadas para a vegetação transformam a própria hospedagem em uma oportunidade para observar a vida ao redor.

Beija-flores e tantas outras aves coloridas aparecem entre os jardins, enquanto esquilos atravessam a paisagem. Cercado pela floresta e pelo silêncio das montanhas, o hotel reforça a sensação de estar em uma Costa Rica completamente diferente daquela que encontrei poucos dias antes, no litoral do Pacífico.
Em poucas horas de estrada, trocamos de clima, de vegetação e de fauna sem trocar de país. É uma síntese da diversidade geográfica da Costa Rica, capaz de reunir paisagens completamente diferentes em um território relativamente pequeno.
E é justamente nesse novo cenário, entre montanhas e florestas nubladas, que começa a busca por uma das aves mais emblemáticas do país.

O quetzal que eu não vi
O quetzal-resplandecente é uma das aves mais emblemáticas da América Central e uma das grandes estrelas das florestas costa-riquenhas. A presença da ave está diretamente ligada às florestas de altitude e à disponibilidade de alimentos como o aguacatillo, um parente silvestre do abacate ali encontrado. É por isso que as montanhas de Dota estão entre os melhores lugares do mundo para observá-lo.
A Costa Rica também é um dos destinos mais importantes da América Latina para a observação de aves. Mesmo em um território relativamente pequeno, o país abriga mais de 900 espécies e reúne ambientes muito diferentes, das florestas tropicais do Pacífico e do Caribe às regiões montanhosas. Não por acaso, desenvolveu uma rota nacional dedicada ao birdwatching, que conecta alguns dos principais pontos de observação do país.
Mas o quetzal dessa vez não apareceu. Faz parte. Observar animais em seu habitat natural pressupõe aceitar justamente o que torna a experiência verdadeira: não há horário marcado nem garantia de espetáculo. É preciso olhar, escutar e, mais do que ter paciência, tempo de sobra para esperar por ele.

Quem acabou roubando a cena foi um cateto — o pecari-de-colar, carinhosamente apelidado de Tocino, que vive na área do hotel e circula por ali com surpreendente desenvoltura. Curioso e habituado ao movimento, virou um dos personagens mais simpáticos da passagem pelas montanhas.
E o que fica dessa etapa é a mudança de escala. Depois de procurar no oceano o movimento das grandes baleias, aqui é preciso olhar para cima. O horizonte aberto do mar dá lugar aos galhos. O barco é substituído pelas trilhas em terra firme ou por uma varanda. E o silêncio, antes necessário para esperar uma baleia, serve agora para perceber o canto de uma ave escondida entre as folhas. Duas experiências muito diferentes, separadas por poucos dias e algumas horas de estrada.

Afinal, o que é Pura Vida?
Depois do Pacífico, dos crocodilos, das florestas, das baleias, da cachoeira, das praias e das montanhas, uma expressão ouvida muito antes da minha chegada a este país lindíssimo faz agora todo sentido.
Pura Vida está em toda parte na Costa Rica. Serve como cumprimento, despedida, agradecimento e até como resposta para dizer que está tudo bem. A expressão se popularizou no país a partir dos anos 1950 e virou linguagem corrente nas décadas seguintes.
O que esta viagem fez foi dar conteúdo à frase. Ao longo de décadas, a Costa Rica ampliou sua rede de áreas protegidas, recuperou parte importante da cobertura florestal e consolidou um modelo de conservação que hoje é parte fundamental da identidade do país. Num território do tamanho do Rio Grande do Norte, estima-se viver 6,5% da biodiversidade do planeta.

E essa política de conservação aparece ao longo da viagem de forma quase imperceptível.
A orientação e os procedimentos de segurança antes de embarcar no Marino Ballena. A trilha de Nauyaca sinalizada e com pontos de água potável ao longo da descida. O guia que sabe o apelido de cada crocodilo do Tárcoles e a época em que o quetzal faz os seus ninhos. A regra, repetida em todo lugar, de não oferecer comida a animal nenhum, nem mesmo para conseguir uma foto. As jubartes que chegam dos dois hemisférios, a preguiça na árvore da recepção e o cateto mascote do hotel encontram hoje a natureza protegida porque, ao longo de décadas, a Costa Rica transformou a conservação da natureza em política de Estado.
Pura Vida, é ou não é?
Na Costa Rica, descobri que esse termo não precisa de muita explicação. Basta olhar ao redor.

Quando ir
Na Costa Rica, a região do Pacífico tem duas estações, e elas não se dividem em boa e ruim. São diferentes. A seca vai de dezembro a abril, com sol firme e temperatura entre 26°C e 28°C no litoral. A estação chuvosa, chamada localmente de estação verde, vai de maio a novembro. As chuvas são mais frequentes, a vegetação ganha ainda mais intensidade e, em determinados períodos, tarifas de hospedagem podem ser mais baixas.
Num país onde o programa é a fauna, porém, quem manda no calendário são os bichos. As jubartes do Hemisfério Sul estão no Pacífico entre julho e outubro; as do Pacífico Norte, aproximadamente entre dezembro e abril. Na região de Dota, o período de fevereiro a junho é apontado pelo material turístico oficial como especialmente interessante para a observação do quetzal; abril e maio coincidem com a época de nidificação.
Esta viagem foi feita em agosto, durante a estação verde, quando as jubartes vindas do Hemisfério Sul estão no Pacífico e a chuva faz parte do roteiro. No fim das contas, o que mudou foi apenas a roupa na mala.
- Caroline Tonaco viajou para a Costa Rica a convite do ICT (Instituto Costarricense de Turismo), com apoio da B2B Seguro Viagem.


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