O viajante e a arte de viajar
Claudia Tonaco

A ARTE DE VIAJAR, O VIAJANTE E O TURISTA

Ao contrário do cotidiano, numa viagem, o tempo relaxado multiplica as experiências

A arte de viajar consiste em aproveitar cada segundo da jornada para fazê-la realmente especial. O mais importante para isso é tornarmos senhores do nosso tempo.

Ao contrário do cotidiano que nos impõem monocromática rotina, numa viagem, o tempo relaxado, distendido, multiplica as experiências. Elas se tornam mais coloridas e atemporais.

Os turistas costumam aplicar a fórmula do custo/benefício em seus roteiros. Embarcam em viagens para ver todas as capitais da Europa passarem rapidamente pela janela de um ônibus. Enquanto isso, tentam se enquadrar no maior número de selfies possíveis.

Melhor é seguir o ritmo do viajante que sai de casa para conhecer particularidades. Ele observa, por exemplo, os pequenos detalhes que dão forma a uma cidade. Ou a beleza de uma paisagem, que tem o poder de tocar sua alma. Com tranquilidade absorve o impacto de uma cultura radicalmente diferente.

Um dia, em Manhattan, esse viajante se vê correndo pelas ruas geladas. Ultrapassa os executivos nova-iorquinos a caminho do trabalho, simplesmente para vibrar na mesma emoção da feérica multidão. Sobretudos, cachecóis, luvas e boinas, muito preto e cinza definem o cenário clássico. Neo-existencialismo no ar? Sirenes, buzinas, burburinho de gente, e apitos de trânsito criam a trilha sonora perfeita para a ocasião. Não é que ali eles soam muito melhor? O viajante caminha veloz tecendo conjecturas, completamente inserido no tempo da ilha vibrante.O viajante e a arte de viajar

Em outro momento resolveu ir para a Itália. Florença é o seu destino. Como os demais visitantes, arriscou deitar-se bem no centro da famosa catedral em busca do melhor ângulo para apreciar a obra monumental. Deixou o tempo agir e acabou sonhando estar no paraíso, segundo a versão de Lorenzo Ghiberti, criador daquelas portas magníficas que vira ainda há pouco.

Entre a possibilidade de sonhar e a de experimentar paraísos na terra ele mergulha no rio da Prata, em Bonito. A água é uma das mais cristalinas do mundo. Ele passa 3 horas inteiras e inesquecíveis, de olhos bem abertos. Curte cada detalhe do brilho, das cores e da magnitude do universo aquátil. O dia tão lindo penetrou com força na transparência aquosa e transformou a paisagem numa obra surrealista. Flutuando em outra dimensão, com um céu distorcido sobre sua cabeça teve, ao invés de pássaros, peixes enormes de escamas prateadas como companheiros de um voo quase astral.

Assim segue o viajante, praticando a arte de viajar, descobrindo, mundo afora os segredos que mais lhe interessam.

Um dia retornou a Nova York, entrou no Museu Metropolitano e teve uma revelação. Se deparou com a Joana D’Arc do artista francês Jules Bastien-Lepage. De imediato resolveu passar ali o resto da tarde, regozijando-se com a visão do quadro.

Entregar-se completamente a uma viagem é o que transforma rotineiros instantes em momentos preciosos. Essa é a arte de viajar. De repente você dobra uma esquina e o mundo inteiro se modifica. Ou será que foi você que mudou?

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